NÃO TEM HOMOFOBIA NO BRASIL
Outro dia, durante a aula, meus queridos alunos simplesmente se recusaram a acreditar que um gay é morto a cada dois dias no Brasil (não lembro como o assunto veio à tona; devo ter usado a estatística como exemplo). Muitos, falando ao mesmo tempo, atônitos, disseram: “I
magina, professora! No Brasil?! Ninguém é morto por ser gay no Brasil!”. Eu respondi que esse número provavelmente é muito maior, pois só entram na estatística os casos de pessoas assassinadas por esse motivo — por serem gays. Há inúmeros casos em que este "detalhe" fica fora do inquérito policial. Mesmo assim, meus alunos não quiseram acreditar.
É aquela história de se jogar a discriminação, qualquer uma, pra bem longe. O velho discurso de “Eu não sou racista, de jeito nenhum, mas conheço gente racista” (se ninguém é racista, como todo mundo conhece alguém racista?). De “Eu não sou machista, respeito e amo as mulheres, minha mãe é uma mulher, mas essa Dilma tem a maior cara de sapatona sem vergonha”. De “Não sou homofóbico, só não quero nenhum gay perto de mim, e se algum me passar u
ma cantada, vai levar porrada”. Apesar desse discurso torpe, que deveria servir pra abrir os olhos pro preconceito, o pessoal tem a manha de jurar que o Brasil não é um país homofóbico. Pois é, homofóbico é o Irã. Lá sim matam gays. Nós vivemos num paraíso de tolerância racial e sexual.
Nas últimas duas semanas aconteceram algumas coisas que deveriam jogar por terra essa narrativa. Ainda não escrevi sobre elas, e sequer tenho certeza se estão relacionadas. Desconfio que sim. E aí, o que elas têm em comum?
- No dia 11 de novembro, um estudante de 18 anos foi preso por beijar um garoto de 13 dentro de um cinema do Santana Parque Shopping, em SP. Eles haviam se conh
ecido pela internet, emarcado o encontro. O jovem mais velho pode ser condenado a 14 anos deprisão por crime contra a dignidade sexual (abaixo de 14 anos, menores não têm vontade própria nem respondem por seus atos, segundo a lei). A grande dúvida é, óbvio, se o jovem de 18 anos estaria preso por beijar uma menina de 13. Alguém chamaria a polícia ao observar essa gritante diferença de idade num casal hétero? Ou essa prisão tem a ver com o preconceito que gays são pedófilos querendo corromper nossas crianças?
- A Universidade Mackenzie colocou no seu site um manifesto contra o projeto que criminaliza a homofobia. O texto, que foi retirado do site na semana passada, após vários protestos, inclusive de alunos do Mackenzie, estava assinado por um reverendo
da Igreja Presbiteriana, e dizia que ensinar e pregar contra o “homossexualismo” (hoje o termo correto, aceito pela comunidade GLBT, é apenas homossexualidade) não constitui homofobia, e que é “missão das igrejas” promover o comportamento ético de todos, até dos gays. Aham. Comportamento ético é o do Mackenzie, que apoiou o golpe militar de 64 e participou do lamentável incidente da Rua Maria Antônia (em que alunos reaças do Mackenzie atacaram os “comunas” da USP). Ético é o Mackenzie que, como outras universidades particulares, não só não contrata como tambémdemite professor com doutorado, para não precisar pagar mais a seus docentes. (E what the duck? Pregar contra gays é missãopra igrejas? Não têm mais índio pra catequizar e tiveram que adotar um novo alvo? Precisam fazer do ódio sua
bandeira?).
- No dia 14, poucas horas depois da Parada Gay no Rio, um grupo de gays jovens estava namorando e conversando no Arpoador quando foi abordado por oficiais do exército. Os oficiais fizeram o que uma corporação patriarcal, hierárquica e preconceituosa ensina a fazer: humilhar, com violência física, qualquer minoria. Um sargento atirou na barriga de um dos jovens, que felizmente sobreviveu. Segundo o oficial, o tiro foi acidental — ele não pretendia atirar, apenas intimidar. É, é isso mesmo que a gente quer: um exército fascista que gosta de intimidar quem seja diferente.
- Na mesma madrugada, desta vez no cartão postal de SP, na Av. Paulista, um grupo de cinco jovens, entre 16 e 19 anos,espancou outros rapazes. Desde o início, pelos relatos colhidos na delegacia, ficou e
vidente que a motivação foi a homofobia. O grupo chamavaas vítimas de “bichas” e “namorados”. Os pais de classe média negaram, dizendo que tratou-se apenas de uma briga entre jovens. O advogado afirmou que uma das vítimas cantou um dos jovens, que não gostou e partiu pra agressão. Sei. Muito antes de aparecer o vídeo que mostra a agressão totalmente gratuita, eu já achei estranho que ninguém perguntasse “Hum, o que o rapaz tava fazendo com um tubo de lâmpada fluorescente na mão?”. Imagina só, alguém sai de uma balada e vai andar pela Paulista de madrugada, em bando, carregando uma lâmpada que serve como arma, e a gente tem que acreditar que o carinha reagiu a uma cantada?! Como esperado, os jovens não chegaram a passar nem uma noite na prisão. Pelo menos a
indignação foi geral e a mídia foi atrás. Descobriu que um dos jovens já havia sido expulso de duas escolas particulares, Dante e Objetivo, e, um mês atrás,denunciado por bater na própria mãe (torço para que pelo menos essa mãe não defenda seu pimpolho). Os outros também tinham fama de brigões (eufemismo pra bullies?), e já haviam surrado um gay numa festa. O vigia de um prédio na Av. Paulista foi amplamenteentrevistado. Ele provavelmente salvou a vida de um dos agredidos, já que conseguiu afugentar o grupo, que saiu comemorando. O vigia ainda teve tempo de perguntar à gangue por que estava agindo assim, e recebeu a resposta: “Porque ele é viado”.
- Depois de tudo isso, foi criada uma tag no Twitter,#homofobianao, que ficou no topo dos Trending Topics por dois dias. Só que aí apareceram os arautos do preconceito e da intolerância (muitos, suponho, saudosos do ódio contra nordestinos no início do mês, e ainda sofrendo com a enorme ressaca eleitoral de não terem eleito seu candidato), e acharam por bem criar a tag #homofobiasim. Essa gente tem dificuldade pra entender que um gay não vai acabar com o casamento e com a moral da família cristã. Não ser gay não é ser homofóbico. Os 90% da população que não é homossexual dever
ia ficar na sua e deixar os gays em paz. É totalmente absurdo odiar alguém por el@ ser diferente. Não compreendo essa necessidade de gastar tanta energia com algo que não lhe diz respeito. Tipo: eu não gosto de banana. Então o que faço? Ué, eu não como banana. Se alguém me oferece banana, eu agradeço e digo “Não, obrigada”. Quando vou a um buffet por quilo, não fico apontando pras bananas à milanesa e fazendo cara de nojo. Tampouco as procuro pra poder destrui-las com um garfo. E ninguém tenta me convencer a gostar de bananas. Eu não gosto, mas sei que tem um monte de gente que gosta. É meio egoísta eu querer que as bananas desapareçam da face da Terra só por eu não gostar delas. Sabe, quem morreu e me nomeou deus? E por falar em deus, não vou ficar procurando na bíblia pas
sagens que possam ser interpretadas como “deus odeia bananas e quer que elas ardam no inferno”. Tenho mais o que fazer.
Olha, é importante chamar o que aconteceu no Rio e em SP pelo nome: foram crimes de ódio. Não foi uma briguinha qualquer. Rapazes foram atacados pela sua orientação sexual. E é importante fazermos uma autocrítica. Sabe aquela campanhade “Onde você guarda o seu racismo?”. Então, todos nós guardamos nossos preconceitos em algum lugar. Mas eles existem, e devem ser confrontados.
Só espero que, depois dessas últimas duas semanas infernais de homofobia, meus aluninhos acreditem que sim, é muito perigoso ser gay no Brasil. E espero que lutem pra
mudar este quadro. Até porque os oficiais que atiram pra intimidar gays ou os jovens que saem pela Paulista com lâmpada fluorescente podem, num dia de pouco movimento, invocar com meus alunos por serem nordestinos, ou comigo, por eu ser gorda. Enfim, por não sermos igualzinhos a eles. E nessas horas eu fico muito feliz por não sermos como eles. Porque eles são a escória, não nós. O que não nos exime da responsabilidade por lutar por um mundo mais tolerante.
ma cantada, vai levar porrada”. Apesar desse discurso torpe, que deveria servir pra abrir os olhos pro preconceito, o pessoal tem a manha de jurar que o Brasil não é um país homofóbico. Pois é, homofóbico é o Irã. Lá sim matam gays. Nós vivemos num paraíso de tolerância racial e sexual.Nas últimas duas semanas aconteceram algumas coisas que deveriam jogar por terra essa narrativa. Ainda não escrevi sobre elas, e sequer tenho certeza se estão relacionadas. Desconfio que sim. E aí, o que elas têm em comum?
- No dia 11 de novembro, um estudante de 18 anos foi preso por beijar um garoto de 13 dentro de um cinema do Santana Parque Shopping, em SP. Eles haviam se conh
ecido pela internet, emarcado o encontro. O jovem mais velho pode ser condenado a 14 anos deprisão por crime contra a dignidade sexual (abaixo de 14 anos, menores não têm vontade própria nem respondem por seus atos, segundo a lei). A grande dúvida é, óbvio, se o jovem de 18 anos estaria preso por beijar uma menina de 13. Alguém chamaria a polícia ao observar essa gritante diferença de idade num casal hétero? Ou essa prisão tem a ver com o preconceito que gays são pedófilos querendo corromper nossas crianças? - A Universidade Mackenzie colocou no seu site um manifesto contra o projeto que criminaliza a homofobia. O texto, que foi retirado do site na semana passada, após vários protestos, inclusive de alunos do Mackenzie, estava assinado por um reverendo
da Igreja Presbiteriana, e dizia que ensinar e pregar contra o “homossexualismo” (hoje o termo correto, aceito pela comunidade GLBT, é apenas homossexualidade) não constitui homofobia, e que é “missão das igrejas” promover o comportamento ético de todos, até dos gays. Aham. Comportamento ético é o do Mackenzie, que apoiou o golpe militar de 64 e participou do lamentável incidente da Rua Maria Antônia (em que alunos reaças do Mackenzie atacaram os “comunas” da USP). Ético é o Mackenzie que, como outras universidades particulares, não só não contrata como tambémdemite professor com doutorado, para não precisar pagar mais a seus docentes. (E what the duck? Pregar contra gays é missãopra igrejas? Não têm mais índio pra catequizar e tiveram que adotar um novo alvo? Precisam fazer do ódio sua
bandeira?). - No dia 14, poucas horas depois da Parada Gay no Rio, um grupo de gays jovens estava namorando e conversando no Arpoador quando foi abordado por oficiais do exército. Os oficiais fizeram o que uma corporação patriarcal, hierárquica e preconceituosa ensina a fazer: humilhar, com violência física, qualquer minoria. Um sargento atirou na barriga de um dos jovens, que felizmente sobreviveu. Segundo o oficial, o tiro foi acidental — ele não pretendia atirar, apenas intimidar. É, é isso mesmo que a gente quer: um exército fascista que gosta de intimidar quem seja diferente.
- Na mesma madrugada, desta vez no cartão postal de SP, na Av. Paulista, um grupo de cinco jovens, entre 16 e 19 anos,espancou outros rapazes. Desde o início, pelos relatos colhidos na delegacia, ficou e
vidente que a motivação foi a homofobia. O grupo chamavaas vítimas de “bichas” e “namorados”. Os pais de classe média negaram, dizendo que tratou-se apenas de uma briga entre jovens. O advogado afirmou que uma das vítimas cantou um dos jovens, que não gostou e partiu pra agressão. Sei. Muito antes de aparecer o vídeo que mostra a agressão totalmente gratuita, eu já achei estranho que ninguém perguntasse “Hum, o que o rapaz tava fazendo com um tubo de lâmpada fluorescente na mão?”. Imagina só, alguém sai de uma balada e vai andar pela Paulista de madrugada, em bando, carregando uma lâmpada que serve como arma, e a gente tem que acreditar que o carinha reagiu a uma cantada?! Como esperado, os jovens não chegaram a passar nem uma noite na prisão. Pelo menos a- Depois de tudo isso, foi criada uma tag no Twitter,#homofobianao, que ficou no topo dos Trending Topics por dois dias. Só que aí apareceram os arautos do preconceito e da intolerância (muitos, suponho, saudosos do ódio contra nordestinos no início do mês, e ainda sofrendo com a enorme ressaca eleitoral de não terem eleito seu candidato), e acharam por bem criar a tag #homofobiasim. Essa gente tem dificuldade pra entender que um gay não vai acabar com o casamento e com a moral da família cristã. Não ser gay não é ser homofóbico. Os 90% da população que não é homossexual dever
ia ficar na sua e deixar os gays em paz. É totalmente absurdo odiar alguém por el@ ser diferente. Não compreendo essa necessidade de gastar tanta energia com algo que não lhe diz respeito. Tipo: eu não gosto de banana. Então o que faço? Ué, eu não como banana. Se alguém me oferece banana, eu agradeço e digo “Não, obrigada”. Quando vou a um buffet por quilo, não fico apontando pras bananas à milanesa e fazendo cara de nojo. Tampouco as procuro pra poder destrui-las com um garfo. E ninguém tenta me convencer a gostar de bananas. Eu não gosto, mas sei que tem um monte de gente que gosta. É meio egoísta eu querer que as bananas desapareçam da face da Terra só por eu não gostar delas. Sabe, quem morreu e me nomeou deus? E por falar em deus, não vou ficar procurando na bíblia pas
sagens que possam ser interpretadas como “deus odeia bananas e quer que elas ardam no inferno”. Tenho mais o que fazer.Olha, é importante chamar o que aconteceu no Rio e em SP pelo nome: foram crimes de ódio. Não foi uma briguinha qualquer. Rapazes foram atacados pela sua orientação sexual. E é importante fazermos uma autocrítica. Sabe aquela campanhade “Onde você guarda o seu racismo?”. Então, todos nós guardamos nossos preconceitos em algum lugar. Mas eles existem, e devem ser confrontados.
Só espero que, depois dessas últimas duas semanas infernais de homofobia, meus aluninhos acreditem que sim, é muito perigoso ser gay no Brasil. E espero que lutem pra
mudar este quadro. Até porque os oficiais que atiram pra intimidar gays ou os jovens que saem pela Paulista com lâmpada fluorescente podem, num dia de pouco movimento, invocar com meus alunos por serem nordestinos, ou comigo, por eu ser gorda. Enfim, por não sermos igualzinhos a eles. E nessas horas eu fico muito feliz por não sermos como eles. Porque eles são a escória, não nós. O que não nos exime da responsabilidade por lutar por um mundo mais tolerante.
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