Toda mulher nasce Gabriela




Por Miguel Rios
Desde que inventaram finesse e seus derivados, Gabriela é morta com poucos anos de vida. Quando não morta, mutilada. Quando não mutilada, aprisionada ou abandonada. As meninas a têm largado cada vez mais cedo, se envergonhado dela. Gabriela, com seu cheiro de liberdade e sua cor espontâneo berrante, abre espaço para a princesa Disney comportada, para a Barbie fashionista, para a doutora cheia de compostura.

Nada contra as três. Fazem parte do feminino. Mas caberia a elas abrir uma vaguinha, menos ditadura. Gabriela só teria a ensiná-las,  reviveria instintos ternos, o bicho fêmea, solto da jaula.

Gabriela não é só linda de corpão, tez e perfume. Não apenas sua pele marrom dourada, suas ancas pronunciadas e seus seios servidos no decote  seduzem. É a soma disso tudo largado ao vento, em cima de um telhado atrás de uma pipa, se banhando em uma fonte em  praça pública. Ela é a tomada de assalto, o tapa na cara, o “como assim?”, a ignorância de pudores típica dos ricos de espírito.

Não o faz pela saliência planejada. Gabriela o faz por impulso, por desejo natural, por acreditar que pode, por  o “não pode” ser tão incompreensível, inaceitável, castrador, que nem lhe passa na cabeça.

A mais sensual mulher da literatura brasileira é o que é por jamais ter se vendido, aceito ordens pesadas. Por ter simplesmente as deixado para lá, para as outras, para as que enterram viva sua Gabriela e, sem ela, vivem arfando. As que sem ela viraram meio que marionetes da língua alheia.

No começo o século 20, em Ilhéus, viravam uma Dona Doroteia, bolorenta, cheia de correntes em um calabouço do qual se perdeu a chave. Viravam uma Sinhazinha, de cotidiano assustado, sem esperança de algo mais, a não ser apelar a São Sebastião por um alívio e força para suportar. Viravam uma Zarolha, jogada de lado, discriminada ao máximo, usada para o sexo acontecer de verdade, como prazer, para que o status quo família de um lado e gozo do outro prosseguisse.

Início do século 20? Em Ilhéus? Não. Ainda hoje e em todo canto. Mulher ainda é forçada a esquecer sua Gabriela e dar gás à sua Virgem Maria. A amenizar os hormônios, fazer de conta que não sente nada. Aí Gabriela dá lugar a Bella Swan. A que se contém. A que finge frio, enquanto ferve, diante da ferocidade animal de tórax e bíceps trabalhados. Que não assume a ebulição como Gabriela, sem problemas em dizer lânguida e na lata: “moço bonito” com olhos além do bem-querer. Destravados, desavergonhados e honestos.

Gabriela sem preconceitos nem conceitos, de sexo imoralmente e alegremente natural, sem preocupação se vai resultar ou não em família, filhos, marido, produtos Brastemp e cafés da manhã com felicidade de Doriana. Gabriela que perde quase sempre de goleada para o martelador sonho de buquê, véu e marcha nupcial. Mulher ainda cede à estabilidade.

Mulher ainda enxerga o futuro com olhos velhos. Ainda obedece, por mais que negue, normas que transformaram o casamento em cerimônia emocionante, indispensável, sem a qual não se pode viver. Capaz de queimar sutiã, mas não a grinalda. 


Nada contra. Só que a Gabriela sai prejudicada, acaba em um saco, no sótão. Não sai mais para correr na chuva com os filhos, com o companheiro e o cachorro, ou para fazer milanesa do próprio corpo na areia da praia. Dá a vez a que repreende, chama para dentro, se enraivece com a sujeira no piso, teme destruir a escova progressiva.

Gabriela foi mandada para cozinha, se trancar no armário, até por um feminismo equivocado, que a vê como burra por ser iletrada, como se não fosse ela feminista nata. Hoje mulher pode mais, manda mais, mais bem sucedida,  mais intelectualizada. Mas também menos espontânea. 

Cada vez mais se dá  menor direito à imaturidade, à tolice. Enquanto o homem mantém sua criancice como cláusula pétrea de vida, a mulher a faz ilegal. Não percebe as perdas. Que os meninos, no auge do tabacudismo, se xingando na brodagem, são mais parceiros, mais jogados, menos travados, felizes. Que o momento babaquice é expectorante. Alivia. Mais que chocolate e com menos calorias.
É que se toda mulher tem uma Gabriela, todo homem tem um Vadinho. Ou bem vivo ou morto-vivo. Meio encosto, meio guia de luz. 

Obsceno, sem noção por demais, entregue total. Vadinho que tá nem aí. Que é a versão testosterona de Gabriela, usufruindo o salvo-conduto do masculino. 

Para o homem se fecha mais os olhos, pode ser Vadinho à vontade. Fato. Pode suspirar livre por pernas e peitos, virar para trás e exaltar bundas. O homem pode até pender mais para um acanhadinho Seu Nacib, um reacionário coronel Ramiro Bastos. Mas que Vadinho está lá em alguma fresta está. Garboso, erótico, palhaço. Dê brecha e verá.

Vadinho que é o cafajeste boa-praça. Dedicado, da esbórnia e do amor tão verdadeiro que voltou da morte para Dona Flor. Vadinho que só é lesado pelo machismo. Que lhe cobra potência todo tempo, interesse sexual todo tempo, o nunca recuar. Mesmo quando não quer, precisa comparecer, tem de pegar, mostrar sempre menos romance, mais tesão. Caso contrário, a dúvida de que não é o que se pensava.

Marginais esses Vadinho e Gabriela. Bom que sejam. Um porre de marginalidade, da mais primitiva, só faz bem. Revigora. Caberia até um decreto, uma marcha, um manifesto individual, o que fosse, por mais Gabrielas e mais Vadinhos. Fortificantes que são a uma vida que tem imposto, se acostumado, porém no íntimo jamais se contentado, com o feijão com arroz socialmente correto. Vida que tem evoluído e até dado asas. Mas ainda de ferro.
 
*Dedicado a Jorge Amado, no ano de seu centenário de nascimento, que nos ensinou como o povão é rico, gostosamente desavergonhado, e tem muito a ensinar sobre libertação de recatos sociais, sexuais, intelectuais e quaisquer outros.

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