AS OLIMPÍADAS E O INCÔMODO MASCULINO


Lívia Carvalho tem 27 anos e mora em SP. No domingo, ela me mandou um link para um texto que ela havia publicado no seu tumblr. Achei o texto tão incrível e pertinente que pedi permissão pra publicá-lo aqui como guest post. 

Não entendo nada de futebol ou de qualquer outro esporte. Não estou entre as mil pessoas mais indicadas a darem seu pitaco sobre o desempenho técnico dos atletas nas Olimpíadas -– jornalistas, especialistas, sabemtudistas: deixo pra eles a contagem das medalhas.
Mas, talvez seja relevante dizer, alguma coisa aconteceu na minha pele quando o Corinthians venceu a Libertadores esse ano. Alguma coisa correu a minha espinha e encheu minha boca num grito que eu não sabia que tinha. Foi nessa hora que eu, que não ligo pra esporte, percebi que a vitória do Corinthians era muito maior do que o fubetol: ela representava o silêncio contrariado dos que torceram contra, a superação dos humilhados e, acima de tudo, a afirmação política mais contundente que há: que é a de ocupar seu espaço (neste caso, o espaço para o nome do time, gravado em uma taça prateada).
Quando vieram as Olimpíadas, começou a ficar ainda mais claro pra mim o sentido daquelas medalhas douradas. Ao me emocionar vendo Thiago Pereira fazer o arrogante Phelphs comer poeira na piscina olímpica, cheguei à seguinte conclusão: também as Olimpíadas são muito maiores do que o esporte. Do contrário, não seriam assistidas por milhões de expectadores que, não entendendo nada de esporte, ficam confusos quando um salto magnífico dado por um semi-Deus recebe a nota 7,386 e é desclassificado.
As Olimpíadas são o espetáculo da superação humana. E, de superação, posso dizer uma coisa ou outra. Vou explicar.
Sou a caçula de uma família grande e relativamente abastada. Quando meu irmão optou por prestar faculdade de medicina, assisti ao entusiasmo e ao apoio do meu pai. A mesada que só ele recebia era justificada com o fato de ele ter passado numa faculdade pública. Este meu irmão sempre teve um carro à disposição para ir às aulas e não trabalhou um dia de sua vida enquanto estudava: “comer bem e dormir bem”, dizia meu pai, “esse é o segredo para ser um bom estudante”. Quando meu outro irmão optou pelo Direito, recebeu o mesmo incentivo incondicional: primeiro, passou em uma faculdade paga cuja mensalidade era de quase R$2000, vitória celebrada por todos; alguns dias depois, recebeu a notícia de ter passado em uma faculdade mais conceituada e bem menos cara, o que foi duplamente comemorado.
Chegou minha vez. Apesar de boa aluna (me formei com a maior nota do Provão aplicado a todos os alunos da minha turma, ao final do Ensino Médio), estava em dúvida de qual profissão escolher. Quando, finalmente, optei pelo Marketing e passei entre as primeiras colocadas na melhor faculdade da área (que não é pública –- nem prestei a pública, por não ser a melhor: o que eu havia aprendido é que só o melhor servia), meu pai mandou dar a notícia, 14 dias antes de começarem as aulas: “você não sabe o que quer da vida. Não vou pagar sua faculdade, você é um investimento sem retorno”. Desnecessário explicar o que eu senti. Considerei desistir de faculdade, de profissão, da vida. Não sei de onde veio a força pra decidir que iria conseguir, nem que fosse sozinha.
Os quatro anos que se passaram depois dessa frase foram de luta solitária, de incerteza, de acordar cedo e trabalhar incansavelmente. Fiz de tudo pra pagar as mensalidades, desde receber pra fazer os trabalhos acadêmicos de outros alunos (e outras faculdades), até distribuir folhetos no estacionamento do Shopping. Cheguei a ter três empregos simultâneos (além das aulas) e -– meu recorde pessoal -– trabalhar 36 horas seguidas. Dormir e comer eram luxos. Não me esqueço do dia em que, fazendo trabalho acadêmico em grupo, minhas colegas pediram Habib’s pra aguentar a madrugada de trabalho e eu, sem nenhum tostão, disse que estava sem fome e fiquei só assistindo.
Ainda enquanto estudava, venci a disputa por um estágio que dava direito à maior bolsa oferecida pela faculdade, de 50%. Um ano depois, no mesmo dia em que venci a disputa por um estágio na maior indústria de Cosméticos do Brasil -– 40 mil candidatos -– meu pai, que já não aguentava mais a afronta, gritou comigo ao telefone, me chamando de débil-mental. Sem nenhum motivo.
Quatro anos depois da frase que mudou minha vida, eu não só me formei invicta de dependências, como também fui aprovada em um dos mais cobiçados programas de trainee do Brasil, também com milhares de inscritos.
Essa grande vitória pessoal definiu os rumos da minha vida. Hoje, trabalho numa multinacional e ganho mais do que todos os meus irmãos mais velhos. Não baixo a cabeça pra nenhum filho da p*ta, e não admito que me diminuam. Eu conquistei meu espaço na unha, e hoje conheço minha força e o meu valor. E é por isso que, ainda que não entenda nada de esporte, me sinto no direito de falar sobre o que tenho observado nas Olimpíadas.

Também nelas tem acontecido uma luta política pela conquista do próprio espaço. Uma luta que, assim como a minha, incomoda o mais rancoroso dos adversários: a das atletas mulheres que chegaram à Vila Olímpica.
Não foi só um, e não precisa ir muito longe pra encontrar o desdém dos “anti”: no twitter, o mais “do bem” dos ativistas sociais atira: “Futebol feminino: um esporte muito parecido com futebol, mas jogado por mulheres”.
Alguns, pra garantir que nunca, jamais, em hipótese alguma, pensariam que mulheres são seres inferiores, tomam o cuidado de começar a frase com “não sou machista, mas…”. Cheguei a ver um “Olha, não sou machista, misógino, nem nada disso… mas boxe feminino não dá. Até feminismo tem limite!”. 

Será que, se fizermos o exercício de aplicar essa frase a um outro preconceito cuja luta já está à frente da luta feminista, fica mais fácil de reconhecer o absurdo? Vamos tentar: “olha, não sou racista, nem nada disso… mas negros disputando um esporte olímpico não dá! Até igualdade racial tem limite!”.

Mulheres disputam provas separadas das dos homens pelo mesmo motivo que pesos-pena disputam provas separadas dos pesos pesados: o peso pesado não é melhor do que o peso pena, apenas sua estrutura física é diferente.
No Brasil, ainda é escasso o espaço reservado às heroínas do esporte. O futebol masculino (estranho falar assim, né? Não é só “o futebol”?) ocupa quase todo o espaço do horário televisivo, dos assuntos e do investimento nacional. Por isso, quando chegam as Olimpíadas, o conforto do mais espaçoso dos machistas, esparramado no sofá, no mercado de trabalho, na sociedade e nos telejornais, é ameaçado; e a afronta feminina incomoda tudo o que não incomodou durante os quatro anos anteriores, durante os quais as atletas olímpicas foram mantidas à margem do que realmente interessa.

Sem heroínas, as meninas também têm pouco estímulo e motivação para brigarem pelo seu espaço nos pátios escolares. As únicas heroínas que vemos na TV e em tantos outros meios de expressão da nossa cultura não são aclamadas pela superação, pela luta, pela disciplina… só vemos modelos de beleza. As próprias atletas olímpicas são forçadas a competirem em um concurso para o qual jamais se inscreveram: sobram enquetes e listas da “a atleta mais bonita”, a única medalha forjada especialmente pra elas. Uma atleta da natação, recordista e vencedora de mais de uma medalha de ouro, ao invés de ser celebrada como símbolo de força e determinação, foi criticada por estar “barriguda” (ora, se ela ganhou um ouro olímpico, acho que está mais do que provado que ela está em forma, não?). Para as mulheres, não basta (nem cabe) ser recordista olímpica – o único lugar reservado a elas é o pódio de Miss. Então, às meninas no pátio da escola, a que sobra almejar? Pra que tentar um espaço no jogo de futebol do recreio?

Esse é apenas um dos muitos motivos pelos quais o futebol feminino no Brasil ainda -– e este é o único ponto em que devo concordar com os “anti” –- está tecnicamente atrás do masculino. Menos meninas treinam desde cedo, menos meninas querem chegar lá (pra que?), menos incentivo financeiro é dado, e assim por diante.
Por esse mesmo motivo, as atletas mulheres de 2012 (112 anos após a primeira edição dos jogos que permitiu a participação feminina -- com 22 mulheres e 975 homens; primeiro ano em que as mulheres competem em todas as modalidades) talvez estejam nos oferecendo o maior espetáculo do que é a essência dos Jogos Olímpicos: apesar de tantas adversidades, de tanta gente torcendo contra, é emocionante a incansável luta pela conquista do próprio espaço e do reconhecimento do próprio valor. É esse o tipo de inspiração que buscamos ao assistir às Olimpíadas.

Não entendo nada de esporte. Mas, assistindo à negligência de todos aqueles que estão gabaritadíssimos a comentar o esporte nas Olimpíadas, me sinto na obrigação de dizer: obrigada e parabéns a todas as atletas olímpicas. Especialmente à Sarah Menezes, única brasileira até o momento a trazer para o Brasil uma medalha de ouro em 2012.
Ah, e só um aviso aos bonitinhos que citei: se preparem. Vamos incomodar cada vez mais.
A foto acima foi publicada no maior (imagino) blog machista do Brasil, um blog que, quando não está mandando mulher lavar louça ou passar cueca (que criativo!), fica chamando feministas de barangas. Acho que Lívia nem pensou no Edu Testosterona ao escrever seu post, mas, quando eu li o "bonitinhos" na última frase, me lembrei do autor do blog. Não sei porquê. E aí me lembrei do que disse a halterofilista inglesa sobre os homens que xingam mulheres serem os caras mais gentis e atraentes a engrandecerem a Terra com sua presença.

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