Sobre antropologia e literatura ou De como a sociedade matou Dona Sinhazinha e Dr. Osmundo, em Gabriela.
Sou dos que defendem a pluralidade de linguagens no espaço em que se traçam as linhas da cognição do real, particularmente da realidade social, como ela é e como é pensada. E deparo-me aqui com um feliz encontro entre a antropologia e a literatura. Penso ser o papel da primeira, esforçar-se para entender o homem desde o interior de suas relações sociais, de suas instituições, de seus saberes, de suas práticas, de suas falas, de suas imagens reais, de sua cultura, portanto.
Assim, na dialética em que se busca compreender o homem contextualizado numa teia de relações, observa-se a sociedade que o contextualiza e que dá sentido a sua vida, na qual vê justificada a existência, continuidade e transformação de si mesma.
Essa dialética não é domínio exclusivo da antropologia ou de qualquer uma das ciências sociais. A literatura a conhece muito bem. E de alguma forma, no que se refere à história do pensamento social brasileiro, antecede os textos das ciências sociais propriamente ditas.
O antropólogo Roberto DaMatta1 atenta para a relação a que me refiro acima, quando diz que os textos literários são “como peças etnográficas – descrições de sociedades” . Concordo com esta analogia. E já havia me esforçado para compreendê-la quando em outra oportunidade apreciei a riqueza “etnográfica” que perpassa a obra Riacho Doce, de José Lins do Rego2.
Neste momento, aprecio o reencontro com a obra de Jorge Amado, em específico no romance Gabriela, cravo e canela, publicado em 1958. Meu primeiro contato com a interessante e dinâmica trama deste romance aconteceu ao final da adolescência, através do livro e da novela, levada à TV, que hoje a reapresenta com nova roupagem, mantendo a essência de sua trama, também com inspiração no livro do escritor baiano, que na literatura brasileira marcou presença no movimento modernista de cunho regional.
Não quero me ater aos detalhes da trama de Gabriela nesta breve escrita. Quero apenas recordar o que me causou e ainda causa mais impacto no teor dessa obra literária e que nem vem a ser, na verdade, a trama que envolve sua personagem central, Gabriela, embora esta também anime instigantes leituras sobre a condição da mulher num determinado contexto e época.
Os detalhes das relações, crenças e costumes vividos na Ilhéus imaginada e narrada por Jorge Amado constituem substância complexa, de densidade semelhante à de uma etnografia. O romance fornece material para várias aulas de antropologia e sociologia, no que tange a dar concretude ilustrativa a sistemas de valores e de poder que, no processo de formação e continuidade da sociedade brasileira, tiveram – e ainda têm!? – força determinante: a cultura patriarcal e a reprodução de seu modelo em diferentes esferas da vida social. E ilustra também a força coercitiva de tais sistemas agindo com domínio intenso sobre a condição de ser mulher nesse contexto.
Em Gabriela, no começo de minha juventude e hoje, uma cena continua a comover-me e a me mostrar uma lição de sociologia e política; a micropolítica do cotidiano, a mais poderosa de todas. Essa cena está na efervescência do dia na atual versão de Gabriela, na TV. É o assassinato de Dona Sinhazinha e Dr. Osmundo, o doce e apaixonado casal de amantes que comete adultério e, na linguagem êmica da Ilhéus romanceada, chifra ou corneia o Coronel Jesuino, macho poderoso, que lava com sangue sua honra manchada; ele, que tinha como certo que poderia “usar” sua Sinhazinha, sem lhe dar carinho e prazer, pois que isso não era para “mulher honesta”. “Vá se arrumar que hoje vou lhe usar”, dizia.
Aprendi bem cedo uma das regras da sociologia de Émile Durkheim3: os fatos sociais são coercitivos e se impõem sobre os indivíduos independentemente das vontades destes. Um exemplo da materialização desta regra figurou-se diante de meus olhos, quando assisti estupefato, a cena do assassinato de Dona Sinhazinha e Dr. Osmundo. Uma série de fatos e relações antecedeu o crime, mostrando como a sociedade é guardiã de sua moral e se encarrega de pôr e manter em ordem uma forma de as coisas serem tidas como corretas, ainda que muitas vezes à custa da hipocrisia. Quem pode ir contra a sociedade, senão o indivíduo, que indo contra ela, quer ter em plenitude o direito de existir e de ser por seus desejos mais íntimos, mas que só podem ser exibidos no anonimato? As coisas não são imutáveis. Mas exigem a pele de quem vai contra a ordem estabelecida.
Foi assim com Dona Sinhazinha e Dr. Osmundo. Mas Coronel Jesuíno não os matou sozinho. Foi movido pela fofoca, pela insinuação indireta e também explícita das beatas que se recusaram a aceitar que uma mulher que bota chifre no marido, ficasse livre em seu gozo, a andar na mesma igreja e nos mesmos salões aonde vão sinhás mal amadas, porém castas ou zelosas dos “bons” costumes. Foi a empregada chantagista que levantou suspeita com suas insinuações. Foi o código da honra masculina ali vigente quem mandou: mulher que bota chifre no marido deve morrer e seu amante também. E o homem chifrado, para continuar sendo homem honrado, deve cumprir seu dever de matar. E será absolvido pela sociedade, por determinadas instituições da cultura. Foi ela quem o autorizou. Ela o absolverá – embora depois a justiça o condene.
E proibirá a menina Malvina, como toda qualquer pessoa da sociedade, principalmente as mulheres, de ir ao esvaziado velório de Dona Sinhazinha e Dr. Osmundo, que não receberam de Ilhéus os últimos ritos que uma sociedade pode oferecer. Eles morreram para aquela vida social, restando vivos apenas como mito, a dar vida a uma ordem social que põe a mulher no lugar de objeto do homem. Para a teoria sociológica, eis aí a força coercitiva de um fato social, a materialização perfeita de um contundente poder simbólico4, a encarnação fiel da dominação tradicional; tipo de poder definido pelo sociólogo alemão Max Weber5.
Passadas várias décadas desde 1958 até aqui, muita coisa mudou no que tange à condição da mulher face aos direitos humanos no Brasil. Temos, inclusive, a Lei Maria da Penha, exatamente porque ainda temos na cena do dia, com destaque, a violência contra a mulher, que se materializa em inúmeros casos de humilhação, espancamento, abuso sexual, aprisionamento e assassinato. Esperamos, contudo, que cada vez mais a sociedade se organize e se torne cúmplice das experiências libertárias e que se distancie mais e mais dos modelos tradicionais ordenadores que reproduzem a violência simbólica e física contra a mulher, como tão bem ilustrado – e denunciado – por Jorge Amado, em Gabriela. Que as Marchas das Vagabundas, com toda a sua irreverência político-cultural, levem para as ruas, bem vivas, muitas Gabrielas, Sinhazinhas e Malvinas, a marchar contra uma cultura de dor e de morte, a gritar em nome do gozo e da liberdade de ser e amar.
E assim concluo este meu breve encontro com a literatura e a antropologia, contente por encontrar em ambas, prazer de conhecer e chaves de leitura para o entendimento de valores e práticas que sustentam e movimentam a dinâmica da vida social.
Fortaleza, 06/08/12.
1 Ver: DaMatta, Roberto. “A obra Literária como etnografia: notas sobre as relações entre literatura e antropologia”. In: DaMatta, Roberto. Conta de Mentiroso: sete ensaios de antropologia brasileira. Rio de Janeiro: Rocco, 1993. Pp. 35-58.
2 Ver: Paulino, Antonio George Lopes Paulino. “Lugar e Poder Simbólico em Riacho Doce”. In: Revista de Ciências Sociais, Vol. 42, Nº 1. Fortaleza: UFC, 2011. Pp. 110-128.
3 Ver: Durkheim, Émile. As Regras do Método Sociológico. 13ª ed. [Tradução de Maria Isaura Pereira de Queiroz]. São Paulo: Editora Nacional, 1987.
4 Ver: Bourdieu, Pierre. O Poder Simbólico. [Tradução de Fernando Tomaz]. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989. (Coleção Memória e Sociedade).
5 Ver: Weber, Max. Economia e sociedade. Vol. 2. Brasília, DF: Editora da UnB, 1999.
Antonio George Lopes Paulino é professor adjunto do Depto. de Ciências Sociais (UFC), instituição onde cursou mestrado e doutorado em sociologia e onde leciona e pesquisa na área de antropologia.
Hoje colabora como Coordenador Adjunto do Laboratório de Antropologia e Imagem (LAI) e é Coordenador do Curso Noturno de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará.
(fonte: http://www.radiouniversitariafm.com.br/sintonize/832-sobre-antropologia-e-literatura-ou-de-como-a-sociedade-matou-dona-sinhazinha-e-dr-osmundo-em-gabriela)
(fonte: http://www.radiouniversitariafm.com.br/sintonize/832-sobre-antropologia-e-literatura-ou-de-como-a-sociedade-matou-dona-sinhazinha-e-dr-osmundo-em-gabriela)
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