Como se omitir diante da submissão? - por Samuel Farias
(fonte: http://samuellfarias.blogspot.com.br/2012/12/como-se-omitir-diante-da-submissao.html )
Assista o vídeo!
Eu nunca quis usar esse blog para falar de religião, apesar de indiretamente já ter falado em vários textos e subjetivamente no AMOR DOS OUTROS E A MINHA FELICIDADE, hoje, no entanto, me sinto profundamente instigado a comentar após assistir e me emocionar com o vídeo no You Tube acima que responde ao questionamento "Como se submeter a uma pessoa omissa?" .
A Pastora fez uma referência a Jezabel. Rainha, mulher, rica, inteligente, audaciosa e astuta, mas que não era independente, vivia para o marido, que era, segundo a bíblia, um rei banana, bunda mole. Jezabel apesar de ser uma mulher a frente do seu tempo, tomando decisões, falando, opinando, todas as coisas que ela fazia era pelo marido, chegando ao ponto de se mobilizar para que o marido ficasse com uma vinha que desejava muito, mas que pertencia a outro. O maior inimigo do seu esposo era o profeta Elias, um cara que tinha poderes sobrenaturais, tendo, inclusive, matado 102 homens com fogo descido do céu só porque eles não se ajoelharam e não suplicaram (2Reis 1: 9-11), além de ter matado 900 homens só porque eles tinham a mesma religião do rei e da rainha (Jezabel) que era diferente da dele, e, ainda por cima, Elias usou esse poder para promover uma grave seca sobre toda a nação com o intuito de prejudicar o rei. Jezabel o odiava e desejava matá-lo, porque esse profeta prejudicava o seu marido.
Jezabel e a mulher diante do trono são mulheres bem diferentes, mas tem algo em comum: viver para os homens. A pastora fez bem essa comparação no discurso, quando falou de dois tipos de mulheres, a que pode até ser evangélica, mas que não é Mulher Diante do Trono.
A mulher tipificada por Jezabel é a que é educada a se garantir profissionalmente para enfim casar e ter filhos como objetivos de vida. Ela encara o casamento e a maternidade como a cereja do bolo da sua vida, como o último estágio para a sua felicidade. Ela não é Amélia, tem opinião, tem voz, mas vive para o marido, chega a ser capaz de aturar muitas coisas que não a agradam, inclusive o machismo, para manter o casamento, mas não calada. É a mulher hoje no geral, a que trabalha na rua e em casa, a que faz a famosa jornada dupla, a que compõe a renda da casa ou então sustenta a maior parte ou até a totalidade das despesas, mas ainda tem que cuidar das crianças, lavar, passar, fazer comida, preparar o prato do marido e dar na mãozinha dele que esta extremamente ocupado assistindo o seu impreterível futebol. Sim Jezabel é a mulher que trabalha a semana toda, cumpre todos os afazeres de casa, mas que reclama com o marido quando ele passa o domingo todo jogando bola no churrasco com os amigos e quando ele passa o dia inteiro no PlayStation e reclama até quando o marido demora para almoçar porque esta soltando pipa, é a mulher que não aceita traição, que reclama por ele deixar o prato sujo em cima da pia, mas que mesmo assim ela lava, é a mulher que reclama no ouvido dele quando ele deixa as coisas espalhadas, joga a roupa em cima da cama, deixa a casa desorganizada pra ela arrumar, ela não é Amélia, mas vive para ele. Esse modelo de mulher infringe o protestantismo, pois segundo a bíblia o homem age errado ao dar ouvidos a voz da mulher (Gn 3:17)
A mulher diante do trono, que é o padrão bíblico, é a submissa, o seu prazer é ver o marido brilhar e a sua salvação (objetivo final da fé cristã) é alcançada tendo filhos (I Tm 2:15). Ela obedece e se submete ao seu marido, dá a honra para ele, não apenas vive para ele, ela também vive por meio dele. Ela não pode se opor ao marido, pode discordar, se ele permitir, mas a decisão final é dele, mesmo que a machuque ela tem que acatar. A mulher Diante do Trono, é aquela que serve igual a Jezabel, mas com uma diferença, ela não tem voz decisiva, no máximo e, com muitas ponderações, tem uma voz aconselhadora. No entendimento dos evangélicos os dons e talentos de uma mulher servem para promover o marido, para que ele seja honrado, ela tem que diminuir para que ele brilhe.
A bíblia retrata sim a mulher como inferior e lhe dá como objetivo de vida ser adjutora do marido (Gn 2:18), diz que Deus determinou que os desejos e sonhos dela seriam para o marido e que o homem a governaria (Gn 3:16), em caso de ser vítima de violência doméstica, por exemplo, a mulher transgride (comete pecado) se divorciar-se e não pode, de forma alguma negar sexo, porque o corpo e a sexualidade dela, segundo a bíblia, pertencem ao marido. Isso tudo fica nítido em várias passagens como sugiro que você veja no site Mulher na Bíblia.
Esse conceito de submissão é tão cruel, e sempre foi pregado e vivido por mulheres evangélicas, hoje bem menos. Quando a outra pastora falou da menina que já sonha com o marido eu me emocionei profundamente porque me recordei da história da minha mãe. Uma mulher adorável, mas com a autoestima em frangalhos, que vive até hoje dependente psicologicamente, que sofreu humilhações de toda sorte calada para preservar o seu casamento e a sua família em nome da religião, por respeito a ela e ao meu pai prefiro não detalhar. Mas me pergunto, sinceramente preocupado, qual será o futuro dessa menina que atrela a sua felicidade a de outro criando expectativa sobre a vida e o casamento com um homem com valores e pensamentos totalmente desconhecidos.
Alguns movimentos mercenários do meio evangélico, sem nenhum fundamento bíblico, estimulam as mulheres a casarem com homens protestantes, sob o título "Eu escolhi esperar", sugestionando que a pessoa que a mulher casar será escolhido por Deus e, portanto, ela será muito feliz e mesmo que o futuro marido a faça infeliz, uma hora (segundo o movimento, é o tempo imprevisível, mas certo, de deus) ele começará a fazê-la feliz, portanto ela não pode se separar. Recentemente a ex-mulher do renomado pastor Marcos Pereira, por exemplo, o acusou na delegacia de te-la estuprado enquanto eram casados, sob o argumento de que ela deve atendê-lo sexualmente. Faça uma reflexão, seria humano que ela continuasse casada mesmo depois de ser violentada? É razoável afirmar baseado na nossa consciência e não na bíblia que ela agiu errado em não fazer sexo contra a vontade apenas para satisfazer o marido?
Os dois tipos de mulheres sofrem muito, porque aprenderam que só serão felizes com um homem e isso cria uma enorme dependência psicológica, um medo de abandono, uma cobrança para ser mãe e proporciona inúmeros casamentos de fachada, em que o casal sorri dentro da igreja, externando harmonia e perfeição, mas em casa as máscaras caem e os maus tratos são frequentes, com agressões verbais, discussões calorosas e humilhações de toda sorte patrocinada pela bíblia.
Esse sistema de submissão da mulher, conhecido por quem não é religioso como machismo, nos trouxe a atual conjuntura. Atualmente a renda da esposa para o lar é necessária, porém, em uma pesquisa recente, 98% das mulheres afirmaram que além de trabalhar se esmeram em casa e que em 75% dos casos não contam com NENHUM auxílio masculino.
Eu sei que essa é uma realidade que salta os olhos, contudo o que ninguém percebe é como isso atinge a mulher e a sua autoestima, 58% das mulheres entrevistadas por essa pesquisa disseram que não tem mais tempo para cuidarem de si mesmas, 46% não possuem tempo de lazer com a família e filhos, 42% nem para se divertir, 32% sequer para dormir e descansar, e, atualmente, com esse sistema de servidão da mulher 60% diz que dorme menos de oito horas por dia. Segundo a ginecologista Elisabete Dobão, esse desgaste tem efeito na saúde da mulher, aumentando casos de depressão e síndrome do pânico " A mulher não freia nunca. Não há sistema que aguente. Não somos feitos para funcionar permanentemente. Acontecem alterações hormonais, piorando a TPM. Ela começa a ganhar peso, a memória fica fraca, aumenta a ansiedade. É uma cobrança muito grande. Ela tem que ser bonita, gostosa, sem celulite, sem estria, com cabelo arrumado, unha feita, pele sem mancha, ser supercompetente, ganhar bem, ter casa limpa e arrumada estilo “Caras” e filhos bem educados e que te amem. Uma verdadeira família margarina." disse ela. É revoltante! Como se omitir diante da submissão da mulher?
A pastora citou apenas dois tipos e não falou de um terceiro tipo que é a mulher que tem foco na sua felicidade, que não esta disputando nada com ninguém, ela não veio para se opor ao homem, não pretende criar uma ditadura da mulher, mas também não veio para ficar abaixo, ela vem, e vem para ficar, para ter os seus direitos garantidos em igualdade, uma mulher que não atribui a sua felicidade a um homem, a um casamento, a ter filhos, ela é livre para, inclusive, casar e ter filhos, mas vai casar se quiser, com quem quiser e quando quiser e vai ter filhos quando quiser, quantos quiser e se quiser, é a mulher feminista. Essa mulher não consegue entender e nem se conformar que, em uma casa onde moram duas pessoas e que ambas trabalham, ela seja a responsável por arrumar e zelar pela casa limpa, ela não admite que, um filho que não é apenas dela, seja ela a responsável de cuidar. É uma mulher que pode casar, mas só vai se manter em um casamento enquanto ela estiver feliz, valer a pena ficar e enquanto o seu parceiro respeitar a sua individualidade, a sua personalidade e a sua liberdade. Uma mulher que não se omite, não se submete a imposição masculina, é a mulher que tem o conceito do feminismo.
O que o feminismo não tolera são esses conceitos católicos reformados ditados pelas pastoras diante do trono que no nosso - é meu também - entendimento diminui a representatividade e a autoestima da mulher. O feminismo prega igualdade de direito e oportunidades, e esta totalmente de acordo com a Declaração Universal de Direitos Humanos e vem defender as mulheres que tem sofrido um massacre psicológico e físico diariamente por causa desse conceito machista e cruelmente opressor.
Há três tipos de pensamentos sociais expostos aqui, o pensamento para a mulher com o perfil de Jezabel, que se submete, mas não calada, o outro para a mulher Diante do Trono, que se submete calada e o pensamento Feminista, que não se omite e não aceita submeter-se ao homem e nem pretende submetê-lo a ela, um pensamento que estabelece um relacionamento de igualdade, respeito e valorização cooperativa com o seu parceiro.
Há três tipos de pensamentos sociais expostos aqui, o pensamento para a mulher com o perfil de Jezabel, que se submete, mas não calada, o outro para a mulher Diante do Trono, que se submete calada e o pensamento Feminista, que não se omite e não aceita submeter-se ao homem e nem pretende submetê-lo a ela, um pensamento que estabelece um relacionamento de igualdade, respeito e valorização cooperativa com o seu parceiro.
Evidente que é decisão da própria mulher os caminhos que quer seguir, não tenho direito de dizer a alguém que não siga a uma religião, contudo, como os três perfis são totalmente incompatíveis, não dá para a mulher ter o perfil de Jezabel e ser uma mulher diante do trono, bem como não dá para ser Mulher Diante do trono e Feminista, ela vai ter que escolher.
Para nós, feministas, a mulher é livre para fazer suas escolhas, seguir seu caminho, a submissão da mulher é uma afronta aos direitos humanos, a diminuição do gênero frente a outro é abominável, a inferiorização de qualquer pessoa é injustificável e repugnamos toda forma de domínio sobre qualquer minoria, e, portanto eu não consigo me omitir diante desse discurso que promove a submissão da mulher e por isso levanto a minha voz contra esse tipo de "ensinamento" nocivo, que mantém casamentos, mas que perpetua relacionamentos infelizes e, não raro, em guerra, mascarando uma série de abusos e violências contra a mulher e proclamo uma nova conjuntura social de igualdade de gêneros, porque o meu pênis não me faz melhor que ninguém.
Samuel Farias
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