GUEST POST: FILHOS, NÃO TÊ-LOS E NÃO SABÊ-LOS (copiado do escrevalolaescreva.blogspot.com.br)


Uma das minhas comentaristas preferidas, a Roxy Carmichel, me enviou este guest post.
Vinicius de Morais, que podia ser bem categórico às vezes, como quando proclamou o caráter não só necessário como fundamental da beleza, se permitiu no "Poema Enjoadinho" o benefício da dúvida ao se perguntar sobre os filhos: se não os temos, como sabê-lo? A dúvida vai se reduzindo consideravelmente até chegar à certeza quando o poetinha lista os benefícios da procriação e termina por convencer a mais indecisa das almas. Mas algo me diz que essa dúvida, ainda bem tímida, tenha ficado datada, perdida em algum lugar dos anos 70 entre os discos do Led Zeppelin e a sexualidade desvinculada da reprodução com o advento da pílula anticoncepcional.
No Brasil questionar esse mandato social ainda é tabu. Ano passado, a matéria "Ter filhos traz mesmo felicidade?" da revistaÉpoca provocou a ira dos papais e mamães contra a sugestão que a maternidade/paternidade pode até ser padecer no paraíso, mas talvez um paraíso menos ensolarado e sem palmeiras. Vale lembrar que essa sugestão aparece na matéria de forma até cândida, já que lá pelo final do texto, os autores reconhecem que o esforço “vale muito a pena”.  
As idéias de esforço e sacrifício, por sinal, são as mais comumente reivindicadas pelos entusiastas da procriação. E nesse quesito, há uma clara vantagem do gênero feminino em relação ao masculino. Certa vez, escrevendo um artigo para a universidade sobre o mito do herói, li que numa certa cultura indígena existia a crença no céu enquanto espaço para onde se dirigem os bons depois da morte, tal qual a gente aqui acredita, com a diferença que nesse céu existia certa hierarquia, onde o lugar mais especial estava destinado aos heróis guerreiros. Do gênero feminino, só as mães ascendiam a esse espaço V.I.P. por suas notáveis qualidades abnegadas de dar a vida por outro ser. 
Por outro lado, a femme fatale, anti-heroína por excelência na cultura ocidental, representa a nemesis da mãe, não só porque nunca tem filhos, mas porque a sua principal atividade é desestabilizar o mocinho que ingenuamente é tragado ao submundo por obra da loira estonteante, porém fria, calculista, individualista -- características que a cultura patriarcal não perdoa. Não perdoa na mulher, claro, a quem está destinado o protagonismo dos afetos e do cuidado, sentimentos esses pertencentes ao âmbito doméstico. 
No homem essas características (frieza, racionalidade, individuação, autonomia) são não só positivas  como incentivadas, afinal estão associadas à racionalização abstrata e ao âmbito público. Pensam eles: “Mas enquanto criamos a matemática, precisamos de alguém que se encarregue da criação dos nossos filhos varões, aqueles que irão fazer algo de nobre com a nossa criação matemática, propulsando assim o motor da evolução da história e das filhas mulheres que seguirão a vocação da mãe de cuidar das filhas para que cuidem dos filhos e...”. E daí realmente, o mínimo que se pode fazer para impedir que mulheres rejeitem essa tarefa que precisamos que elas desempenhem, é uma campanha difamatória onde a mulher que não tem filhos será uma puta egoísta sem sentimentos, e quem melhor que uma poderosa louraça belzebu para simbolizar esse nosso medo? 
E assim é constituída a figura da femme fatale, como síntese dos medos masculinos do feminino, e consequentemente dos temores femininos também, já que esse glamour que ostentam no início da narrativa, serão prontamente destruídos e daí, só irá emergir a miséria e a punição pela ousadia de ser... mulher.
Certo é que esse modelo foi desmascarado. Que em alguns países, pais e mães dividem o trabalho de criação dos filhos e cuidados com a casa. 
Que ainda nesses mesmos países, mulheres avançam sobre o âmbito público. Que pais e mães educam seus filhos e filhas para desenvolver as mesmas potencialidades. Só que em muitos outros países, incluindo o nosso, o modelo "mulheres responsáveis pelo âmbito doméstico" ainda é o dominante. Mas as mulheres ainda querem ser mães. Nem que para isso tenham que assumir uma jornada dupla, muitas vezes tripla. E é por isso que ainda que não acredite em instinto materno, considero o tema da maternidade um dos mais enigmáticos do feminismo.
Como aponta a autora Muriel Dimen, “mesmo se a estranha relação entre sexualidade e reprodução não for conscientemente problemática, ela continua na experiência inconsciente das mulheres que cresceram no patriarcado”. Isso se deve ao fato de que mulheres são consideradas “biopsicologicamente apropriadas para a criação de filhos, e na prática, são treinadas para isso”.  Desse modo, “qualquer que seja o trabalho assalariado que as mulheres façam, são inseridas em primeiro lugar no âmbito doméstico”. E ainda que a mulher não queira se candidatar ao posto, a maternidade ainda povoa os pensamentos femininos na forma de controle de natalidade.
Recentemente perdemos uma ótima oportunidade de pensar nessas questões condensadas na maternidade como mandato social por meio do excelente filmePrecisamos Falar sobre Kevin, que a imprensa preguiçosa preferiu estigmatizar como um filme de terror disfarçado de filme de arte, não interessada em investigar a origem da psicopatia do complexo personagem-título que acabou reduzido ao mal encarnado. Outra leitura, igualmente banal, atribuía dita psicopatia à falta de amor que a mãe dedicou ao filho. Muitas questões aparecem ali. Entre elas, o papel da mãe que deve se sobrepor a todos os outros papéis desempenhados por Eva (ou por qualquer mulher) –- o de executiva, o de amiga sociável que se deleita em receber amigos em seu loft em Nova Iorque e até mesmo o da mulher erótica que deseja e quer ser desejada. 
Quando fica grávida, o marido (aquele mesmo que depois não dedica cinco minutos a prestar atenção no comportamento estranho do filho) exige que ela não dance pra não prejudicar o bebê, grita de indignação quando Eva toma um cálice de vinho e impõe uma mudança pra uma cidade do interior, onde os filhos poderão ser criados nos mais destacados padrões e valores dos comerciais de margarina, distantes dos amigos e do trabalho que ela desenvolvia com paixão. Também está a cena de contornos incestuosos, em que mãe surpreende filho em plena atividade masturbatória no banheiro, desafiando-a com o olhar, em vez de retrair-se de vergonha ao ser descoberto. 
Numa conversa com minha mãe (quero deixar claro que se esse espaço VIP do céu existe, que a minha santa mãezinha seja conduzida pra lá de primeira classe), ela me confessou que na minha idade não queria ter filhos, mas quando soube que estava grávida, ficou imensamente feliz e hoje entende que foi excepcional ter filhos. Eu não duvido. No entanto, se ela me dissesse que muitas vezes duvidou do sucesso dessa decisão e da respectiva empreitada de ser mãe, eu não teria me sentido menos amada e teria me solidarizado, enquanto mulher que sou e que entende que é desumano que a dúvida ou a expressão de insatisfação, e mais, o acolhimento diante dessa dúvida e insatisfação seja negado às nossas mães ou a nós, enquanto mães. E que não só seja negado, como seja utilizado para desqualificar.
No livro Coroas: corpo, envelhecimento, casamento e infidelidade, a antropóloga Miriam Goldenberg faz um estudo comparativo entre mulheres brasileiras e alemãs na faixa dos 50 anos para responder como essas mulheres lidam com essas questões. No Brasil, um dos principais capitais que uma mulher pode ter é o capital marital. E isso não tem nada a ver com ter um marido pra te sustentar e sim, um marido para ostentar. O corpo seria outro grande capital feminino no Brasil, o que explica porque as entrevistadas destacaram o sentimento de frustração diante da constatação que seus corpos não são mais atrativos para a sociedade. Já as alemãs destacaram o sentimento de realização ao terem alcançado o respeito a partir de uma carreira consolidada durante vários anos. 
Não pretendo me aprofundar muito nas conclusões do livro (mas recomendo muito que leiam), e sim, me deter no objeto de estudo de Goldenberg, que já traz algumas conclusões para o tema que abordo: das entrevistadas brasileiras, todas eram mães, estavam casadas ou haviam sido. Já as alemãs, havia no grupo de entrevistadas mulheres casadas, solteiras, divorciadas, mães e mulheres que não tinham filhos. O interessante é que os filhos apareciam como os lanterninhas na lista de realizações das entrevistadas brasileiras. Surpreendente? Eu diria que não.
O pediatra argentino Mario Sebastini publicou recentemente um livro retomando a pergunta do Vinicius de Morais, mas as conclusões são bem distintas das do poetinha. 
Primeiramente ele é enfático ao afirmar que boa parte das concepções da classe média não são planejadas, prática essa que a própria classe média condena em classes menos abastadas. Depois ele lista as justificativas mais comuns que escuta em seu consultório ao atender futuras mães: “eu não queria, mas meu marido não queria parar até ter um filho homem”, “não queria ter filho, mas ou ficava grávida ou perdia meu marido”, “Nos cuidamos com preservativos, mas uma noite, depois de uma festa de casamento e muitas taças de champanhe, não usamos... Foi um acidente”. A palavra amor não figura nesses relatos.
Mas o pediatra propõe uma reflexão que nenhuma mulher ou homem deveriam se abster de ter. Ele diz: “Não tenho duvidas de que uma sociedade é melhor e será melhor se cada um de nós, sozinhos ou enquanto casal, perguntarmos se faz sentido ter filhos, ou que sentido daremos ao passaporte que outorgamos a nossos filhos na chegada a este mundo.”
Afinal, quem se beneficia com ocrescei e multiplicai-vos religioso e mecânico, com o não menos mecânico argumento da importância da propagação da espécie ou com a ideia da existência do instinto materno? 
Certamente não as próprias crianças que muitas vezes vem ao mundo para justificar o desejo egoísta dos pais que não se comprometem com o desenvolvimento dessa nova vida (e aí não entra somente a questão material, e sim, um cenário que vai permitir que a criança se desenvolva nas melhores condições possíveis). 

Certamente não o planeta que mudou um pouquinho desde que a bíblia foi escrita e hoje sofre com os efeitos da propagação da espécie, e falo de números, mas mais de ações (você sabe quantos recursos são gastos para a manutenção dessa vida?). 
Certamente não as mulheresque precisam justificar tal instinto acumulando uma jornada dupla ou tripla, já que elas são “biopsicologicamente mais apropriadas para a criação dos filhos” e precisam pagar as contas, trabalhando.

E por falar em espécie humana, será ela assim tão sagrada? Não nos esqueçamos que a espécie humana que produziu a arte, a filosofia, é também a mesma espécie que mata, explora, discrimina, escraviza, humilha. Acho que não vivemos atualmente e talvez jamais tenhamos vivido no Éden, onde todos têm liberdade, amor, recursos materiais e imateriais para desenvolver nossas potencialidades, portanto não consigo entender muito bem essa defesa apaixonada da propagação da espécie, a não ser que ela parta das grandes empresas que necessitam de mão de obra barata (e ela será barata se for abundante e não tiver trabalho pra todos). 
Já aqueles que insistem em afirmar que podem ser os progenitores dos futuros Einsteins, eu pergunto: será que esse futuro Einstein já não existe e se encontra agora num lar adotivo esperando alguém que lhe dê amor, bem como uma casa e uma escola para que ele possa desenvolver sua genialidade? Será que ter seus genes é condição sine qua non para tornar-se o novo Einstein? Ou é só condição sine qua non para realizar seu desejo narcisístico de reconhecer seus traços em outro ser?

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