GUEST POST: A GUERRA INVISÍVEL - copiado do escrevalolaescreva.
Foi a Fernanda, que quer ser identificada apenas como "uma feminista do dia a dia", quem me sugeriu ver o documentário A Guerra Invisível (aqui > uma breve reportagem sobre o filme, com narração em português de Portugal).
Eu ainda não tive tempo, mas só o trailer já é assustador. No maior e mais poderoso exército da história da humanidade (1,5 milhão de soldados ativos), meio milhão de mulheres já foram abusadas sexualmente nas forças armadas dos EUA. Porém, apenas 8% desses casos vão a julgamento, e só 2% resultam em condenações. Ou seja, é vantajoso entrar no exército pra estuprar. E vários estupradores em série fazem isso.
Eu não tenho o menor carinho pelo exército (de qualquer lugar, e muito menos por aquele da nação mais forte do mundo). Mas é chocante saber que estupros são cometidos impunemente. Faz pensar em quem um exército que não consegue proteger seus próprios membros pode proteger. Faz pensar se todos esses casos também não são uma forma de expulsar mulheres das forças armadas.
A Fernanda fala mais do filme.
O documentário A Guerra Invisível, um dos indicados ao Oscar de melhor documentário este ano e vencedor do prêmio de público em Sundance, traz depoimentos de mulheres estupradas em serviço nas forças armadas americanas. De acordo com os dados do filme, uma mulher no exército tem mais chance de ser estuprada por um colega de trabalho do que de ser morta por fogo inimigo.
São mulheres que encontram a sua voz no documentário e que narram de cara lavada as atrocidades que sofreram. Corajosas, dão voz a um problema que, como o próprio documentário mostra, é invisível. São depoimentos crus, fortes e carregados de realidade. Uma delas conta sua guerra particular para receber o auxílio médico de que precisa para tratar seu maxilar deslocado durante o estupro. Como não há processo, o seguro social não aceita seus pedidos. Como consequência, ela vive há anos em dieta pastosa e com dor.
Outra mulher conta como é difícil se convencer de que ainda é virgem após o estupro. Há casos em unidades de elite, no exército, na marinha e na aeronáutica, em diversos locais e hierarquias. Trata-se de uma guerra, e não uma batalha. O filme aborda também o caso de homens violentados em serviço.
Em determinado momento do documentário, é mostrada a busca de um grupo de mulheres que sofreram abuso para entrar com um processo junto ao Congresso (é necessário entender um pouco mais do complicado sistema jurídico americano, o que me falta) para que os crimes sexuais sejam julgados na instância civil. Casos criminais ocorridos dentro do exército são julgados em instância militar, ou seja, muitas vezes o próprio estuprador é responsável pela investigação da denúncia.
Além disso, a lei americana diz que o Estado e o exército não podem ser processados por danos colaterais causados enquanto em serviço (o exemplo do próprio filme para explicar é "se um médico amputa a perna errada de um soldado ferido em serviço, não pode haver processo"). O objetivo do grupo de mulheres era subverter esse status quo para os crimes sexuais, para que eles fossem tratados como são pela sociedade civil. Ao fim do processo, os estupros foram considerados danos colaterais de se estar no exército e não puderam ser revisados externamente.
O que essa resolução diz é “Se você quer entrar no exército, saiba que corre o risco de ser estuprada e nós, sociedade, não podemos fazer nada quanto a isso, já que é uma questão do exército”. Isso acompanha o pensamento implícito das campanhas de prevenção contra estupro do exército americano: não ande sozinha por aí, aprenda a não ser estuprada. Não há qualquer evidência de que o exército se preocupe em ensinar os homens a não estuprar; pelo contrário, o filme mostra dados que indicam que o número de homens que entram no exército com processo prévio por crimes sexuais é enorme.
Deixo de lado, assim como o filme o faz, as ressalvas ao exército americano (ou a todos os exércitos, pois ganhamos mais com o “faça amor, não faça guerra”) e à política bélica americana, mas é possível direcionar o nosso olhar para a história dessas mulheres que entraram no exército em busca de realização profissional e pessoal e foram violentadas pelo mesmo simples e descompensado fato de sempre: são mulheres e estão lá.
Não podemos imaginar que os dados ou fatos do filme são uma novidade: trata-se de um microcosmo potencializado do problema que observamos na sociedade como um todo. Se no filme os casos de estupro são investigados e julgados pelos próprios estupradores ou amigos deles, na sociedade civil a cultura do estupro trata do estupro nas mesmas condições, de forma mais velada e indireta.
Proporcionalmente, os casos de estupro não denunciados por medo ou vergonha no exército e fora dele são semelhantes. As represálias e ofensas que as entrevistadas contam são as mesmas que muitas vezes já lemos aqui mesmo no blog da Lola. As meninas aqui fora também são ensinadas a não andar sozinhas, a escolher bem suas roupas, a não beber demais para não serem estupradas. O sentimento de culpa, a impunidade, a revolta são os mesmos.
O grande mérito do documentário e o porquê de todxs nós devemos assisti-lo é que há voz. Essas mulheres estupradas no exército (oupelo exército?) tiveram a coragem de falar e merecem ser ouvidas. Ao final do filme, há um breve texto contando como, após a exibição do documentário a autoridades governamentais e do exército, houve uma tentativa de mudança nas políticas em relação ao estupro.
Nada é garantido, mas é um começo. Mais do que isso, talvez a voz dessas mulheres inspire outras a contar também as suas histórias. Não se calar, denunciar sempre, é importante para subvertermos a lógica do estupro.














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