O machismo nas relações “livres” - por Helena Romera




























(daqui: https://medium.com/@helenaromera/o-machismo-nas-rela%C3%A7%C3%B5es-livres-b3d461e1f907#.5g63nwcw4 ) 

Haveria espaço para uma mulher ser efetivamente livre em uma relação afetiva com um homem?
Eu já estive em um relacionamento abusivo, em que era controlada e me sentia presa, diminuída, sem voz. Foi traumático e tenho cicatrizes disso até hoje. Em um primeiro momento, resolvi que iria ficar sozinha, pois não imaginava que seria possível estar em um relacionamento amoroso com um homem sem que houvesse controle. Depois, percebi que poderia haver outro caminho, em que eu me sentiria livre pra ser quem eu sou e não me sentiria presa ou inferiorizada por ser mulher. E foi aí que comecei a pesquisar sobre o amor livre, sobre o poliamor e sobre as relações abertas.
Na teoria era lindo. Na teoria, eu não tive dúvidas em me dizer não monogâmica, porque na teoria era possível estar em um relacionamento com um homem e me sentir e ser livre. Livre de uma relação repleta de machismo.
E eu busquei isso por um certo tempo. Tive algumas experiências. Até perceber que: na prática, a teoria é muito diferente. E aí que hoje eu não sei mais se quero relacionamento monogâmicos ou não monogâmicos. Eu quero é amar e ser livre. Será que é possível para uma mulher querer tanto assim?
Não sei se para muitas mulheres o pensamento é isso, mas para mim era intuitivo: havia controle porque era monogâmico. Porque o controle e o relacionamento abusivo muitas vezes começam pelo ciúme, pelo medo de uma traição — em relações monogâmicas, então.
Mas aí você vai percebendo que o machismo é muito maior do que controle, do que ciúmes. E que as relações baseadas no “amor livre” não estão isentas de serem machistas.
Há muito machismo no amor livre. Muito. E que muitas vezes esse machismo pode invisibilizar e machucar tanto quanto em uma relação monogâmica.
Vamos lá. O clássico do machismo nas relações “livres”: aquela relação em que, na verdade, a relação só é verdadeiramente “livre” de um dos lados. Do lado do homem. Quando é o homem que tem várias relações sexuais ou amorosas com outras parceiras, tudo bem. Agora, quando a mulher começa a ter outras relações sexuais ou afetivas, aí ele não aguenta.
Mas pode ser mais velado também. E aí também mora um perigo imenso, porque pode ser que a mulher demore muito tempo para perceber que está em um relacionamento machista, e que ela na verdade não está sendo livre coisa nenhuma. É aquela história: o homem está lá de boas tendo outras relações sexuais e afetivas. E está tranquilo com isso. Mas a mulher não. A mulher fica insegura, com medo de perder aquela relação, como medo de a outra ser melhor e de ser abandonada. E aí? Muitas e muitas vezes, essa mulher vai ter que lidar com toda essa insegurança sozinha.
E é fácil de entender o motivo. Nós mulheres, desde muito pequenas, vamos aprendendo que a outra mulher é nossa inimiga. A competir, a querer ser a melhor. Aprendemos que mulher é tudo falsa, não é? Escuto isso desde criança. Então, em uma relação dessas, é normal ficarmos inseguras, porque foram anos e anos e anos aprendendo a ver em outra mulher uma inimiga.
Além disso, as mulheres acabam por muitas vezes guardando as inseguranças pra si. Porque é muito irritante ser aquela mulher que fica sempre inventando DR, não é? Homem nenhum suporta isso. Homem não tem paciência pra isso. Quantas vezes você tentou conversar sobre a relação de vocês com seu parceiro — tão compreensivo, desconstruído e simpatizante do movimento feminista — e ele fez cara feia, de tédio, de não tô com paciência pra isso de novo? Pois é.
A gente não fala de muitas das nossas inseguranças e dos nossos receios em uma relação, porque isso vai trazer problema. E não queremos trazer problema em uma relação com um cara que a gente ama, não é?
Aí o cenário é esse: uma mulher numa relação que era pra ser livre, mas que está deixando ela cheia de inseguranças, com as quais ela vai ter que lidar sozinha. E é difícil pra caralho lidar com uma insegurança desse tamanho sozinha.
Eu já vi várias meninas entrarem para uma relação não monogâmica porque o cara era não monogâmico e dizia que não entra em relações monogâmicas. Aí a mina se apaixona e aceita, mesmo que esse tipo de relação mal tenha passado pela cabeça dela antes desse cara. Mas eu nunca, nunca vi um homem entrando numa relação não monogâmica porque a mulher quer que seja assim, apesar de ele achar que isso não é para ele — normalmente já pula fora logo e é isso.
E aí a gente cai no outro caso clássico de machismo nas relações não monogâmicas: a relação não monogâmica em que todas as regras são ditadas pelo homem. E aí a mulher sofre, se inferioriza, fica presa na sua insegurança e na sua angústia. E depois, quando tudo acaba, a culpa provavelmente vai ser dela. A louca, problematizadora, insegura.
Ah e tem também o típico do machismo nos relacionamentos abertos. O homem que se faz de desconstruído, mas tá nessa só porque está “na moda”, só porque quer pegar todo mundo sem responsabilidade afetiva nenhuma. O famosíssimo esquerdo-macho.
E a lista, infelizmente, continua (sem nem parar para contar os mini-machismos velados do dia a dia).
Eu acabo vendo um padrão nisso tudo: vários e vários homens sem responsabilidade afetiva nenhuma com a mulher que está com eles, mesmo nas “relações livres”. E, para mim, responsabilidade afetiva é o que mais importa. Você olhar pro outro que está com você e cuidar daquela pessoa, olhar pro outro e perceber o outro, perceber todas as inseguranças e os medos e lidar com isso tudo. Mas poucos são os caras que tem coragem o suficiente para ter responsabilidade com os sentimentos da outra pessoa. Homem não foi criado para cuidar do outro, só de si. Mulher foi criada pra cuidar do outro, depois de si.
Relacionamento “livre”. Livre para quem?
Nem precisa entrar muito nessa questão, que pra mim é até que meio óbvia: é muito mais fácil quebrar os padrões de um relacionamento monogâmico se você é homem. Se você é mulher, provavelmente vai ser difícil pra caralho. E provavelmente você ainda vai ter um longo caminho de machismo nessa busca de ser livre nas relações hétero.
E aí por tudo isso que eu gostei muito desse texto que apareceu por esses dias no meu facebook (foto). A gente sai de uma relação abusiva e acha que a liberdade vai estar em um “amor livre”, só que amor livre é muito mais do que a não monogamia. É ser livre de machismo, é ter um companheiro que constrói as coisas junto e te ajuda com as suas inseguranças. É troca. Deveria ser simples, não deveria?
Eu já não sei mais o que eu quero nas relações amorosas, se relações monogâmicas ou não monogâmicas. Eu sei que quero o básico: ser livre. Não quero ficar presa em inseguranças, com homens que destilam machismo em qualquer configuração de relação. No fim, o buraco é muito mais embaixo: não monogamia não significa relação igualitária. Em uma sociedade ainda muito machista como a nossa, o buraco vai ser sempre muito, muito mais embaixo. Infelizmente.

P.S.: sempre bom lembrar que a maioria dos textos aqui do blog que não são meus tem o link da fonte logo no começo e o "por"/"escrito por" no título. compartilho das ideias e opiniões dos autores.

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